sexta-feira, 3 de setembro de 2010

GUERREIROS EM ARMADURAS DE COURO

O processo de colonização no Brasil só iniciou-se a partir de 1530 com a vinda dos fidalgos portugueses, agraciados com as capitanias em que os donatários detinham plenos poderes se constituindo na verdade em pessoas poderosas, em decidir os destinos das capitanias, exercendo a justiça, arrecadando impostos, concedendo sesmarias, explorando os minérios de aluvião e em praticar a preação de indios,ou seja, apresamento para satisfazer o modelo escravista em vigor,mais tarde consolidando-se com o tráfico negreiro,modelo desumano de utilização da mão de obra, em que o mesmo era visto como propriedade do seu senhor.
Inicialmente a colonização e consequente ocupação do território nordestino,em particular da Bahia, se deu pelo litoral, satisfazendo o ímpeto do modelo agro-exportador empreendido pela metrópole portuguesa, as capitanias passaram a cultivar a cana-de-açúcar, pois, tinha uma boa aceitação o açúcar dela derivado,ou seja, existia um mercado consumidor certo, alcançando excelente preço no comércio europeu tornamdo-se, assim , " o rico ouro branco " atendendo os interesses mercantilistas e de acumulação de riquezas, se constituiu no primeiro grande ciclo econômico do Brasil - Colonial submetido a corôa portuguesa logo sentiram outras necessidades à exemplo da criação do gado bovino, que lhes -iam dá suporte como uma atividade secundária , mas não menos importante, pois , oportunizará não só o desenvolvimento do cultivo da cana, utilizando-se do gado como meio de transporte, como tração animal, fornecimento de carnes para alimentação e o comércio de peles,ou seja, do couro.
As primeiras cabeças de gado que chegaram à colônia foram trazidas pelo então governador geral Tomé de Souza, em numero de doze reses, com a finalidade de apoiar o cultivo da cana-de-açúcar.
Com o passar dos anos o rebanho irá paulatinamente aumentando mostrando-se inviável a sua criação e manejo junto aos partidos de cana. Isto irá possibilitar o processo de interiorização da colônia, pois, além disto as pastagens naturais eram abundantes, não atrapalhando o cultivo da cana-de-açúcar em nenhum dos seus momentos em que era processada.
O conhecimento do interior será cada vez maior, alargando o território com a presença dos colonos e consequente ocupação, redesenhando o espaço físico-geográfico ,delimitando limites e fronteiras dos sertões possibilitando um comércio cada vez maior e próspero, os " velhos currais " irão cedendo lugar para o surgimento das primeiras povoações,vilas, vilarejos,províncias que mais tarde tornar-se-ão cidades.As feiras de gado eram de fato o elo de ligação entre os currais e as povoações que surgiam à exemplo de grandes polos comerciais e industriais do presente ,tais como: Feira de Santana (Bahia), Caruaru (Pernambuco) e Campina Grande na Paraiba.
O cenário dos sertões se modificará ao longo dos tempos, pois, a perseverante criação do gado dará oportunidades de enriquecimento e sobrevivência de muitos, fazendo surgir também e principalmente, uma " civilização corácea ", do comércio de peles que será fartamente utilizada na confecção de celas,arreios,viseiras,peitorais,calçados, perneiras blusas e chapéus de couro ,que irão compor a indumentária da figura humana do vaqueiro e do seu cavalo, ambos predispostos ao trabalho heróico de vaquejar o gado , juntos se responsabilizam pelo o zelo,os cuidados e o seu manejo ,tornar-se-ão verdadeiros guerreiros em suas armaduras de couro à correr pelas caatingas à enfrentar os cactus, os xique-xiques,mandacarus, coroas-de-frade o rasga gibão.
Eis,o grande responsável pelo crescimento do rebanho, prontos para pastorear o gado imprimindo de maneira destemida os cuidados necessários para sua integridade, o vaqueiro, nas trilhas de gado, faz ressoar no seu aboio uma quase oração, só entendida por ele e a própria rês,neste caminhar vale ressaltar que de sertão adentro o Rio São Francisco " o velho Chico " tão carinhosamente chamado e conhecido pelos ribeirinhos, deu lugar durante muito tempo às trilhas de gado e pouso de boiadas.
O vaqueiro, esta figura mítica e quase lendária que povoa os sertões,associado a utilização do couro o seu comércio e manejo do gado, fez surgir hábitos e costumes tornamdo-se, uma referência identitária para o nordeste.Nasceu como um segmento social livre de um povo mestiço,caboclo que se apaixona e se dá conta do seu existir.
Se não existe caatinga e nem gado, o vaqueiro também não , resta-nos as vaquejadas e as pegas de boi no mato para celebrar o que outrora era comum no sertão. Neguemos a extinção !!!
Por tudo que o vaqueiro representa é merecedor do reconhecimento popular, mas carece que as entidades culturais responsáveis pela memória histórica, se debrucem sobre esta questão no sentido de preservar e tomba-la como patrimônio imaterial da história nordestina e brasileira.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

PRÉ - HISTÓRIA (EVOLUCIONISMO)

Este tema é por demais importante, envolvente e apaixonante, abordá-lo exige do estudioso da história um poder de análise e síntese mais também de grande poder de empatia, em se colocar no lugar do outro, para sentir de perto todo o dilema vivido pelos hominídeos de 4 milhões de anos atrás quando tudo se originou numa verdadeira genesis.
Vejo o homem inicialmente dominado pelo o medo, atormentado pelas grandes mudanças climáticas, pelas imtempéries e glaciações polares, de uma natureza em formação que se agigantava perante si;se constituindo num desafio a ser superado, a mente deste primata que não conseguia explicar e desvendar os mistérios por ele vivido, dependia de um ordenamento lógico capaz de fazê-lo acreditar na sua superioridade perante os demais seres vivos.
O dom , a aptidão e mesmo o grande poder de adaptação deste hominídeo é impressionante, à medida que o tempo passava ele testemunhou as mudanças, as modificações da natureza física e na sua capacidade, potencialidades, racionalizou evoluindo juntos, buscando atender as suas necessidades de então.
O Paleolítico Inferior foi marcado por uma vida nômade,portanto, migravam constantmente buscando sobreviver, uma vez que não produziam nada,dependiam do que a naturêza tinha a lhes oferecer viviam da coleta e da caça sendo assim extrativistas. As cavernas se constituíram no lugar seguro para se protegerem das frias noites de inverno e dos ataques dos animais selvagens,famintos à busca da presa.
O Paleolítico Superior caracterizou-se por grande avanço na escala evolutiva deixando de lado aquela vida nômade,pois, o homem de agora já cansado de tantas incertezas ,buscou o equilíbrio , a estabilidade, um novo modo de viver, resolvendo criar a primeira instiuição social: a família,para tanto, fora necessário garantir o sustento, criou a primeira propriedade particular, cercou um pedaço de terra para cultiva-la garantiu-lhes a sedentarização, realizou a primeira revolução da história: a agrícola, utilizando os mananciais de água disponíveis, construindo a sua casa atendendo assim as suas necessidades básicas: de procriação,segurança e alimentação. Fora lançado neste momento histórico as bases do crescimento e do desenvolvimento material da sociedade futura, impulsionando-o à atitudes cada vez mais ousadas que repercutirá mais tarde na formação e na consolidação do Estado,pois,a formação de grandes conglomerados humanos às margens dos grandes rios tornaram as relações mais complexas exigindo a formação de uma estrutura de governo, sob a liderança de alguém em que podessem estabelecer uma relação de confiança, que fosse capaz de comandá-los nas guerras e conquistas.
O domínio de novas tecnologias,deixa de lado a pedra lascada e polida,remetendo-o ao uso dos metais sinalizando com mais propriedade os novos tempos, a fundição do bronze,estanho e do ferro modernizará a fabricação de peças e implementos agrícolas tão necessários no trabalho do campo e na produção de alimentos, associada a atividade agrícola estava a domesticação de animais fartamente utilizados como meio de transporte e tração animal,a aração da terra agora é feita com o arado de metal garantindo maior produtividade,sobrevivência e a continuidade das gerações futuras.
Contextualizando a pré -história brasileira,sendo ela mais recente,de l500 para traz,se constitui numa prova viva da sua existência,sendo ela um patrimônio humano histórico natural, merecendo a tutela do Estado,amparando-a,preservando os seus valores que tão bem identifica a nossa nação, a nação brasileira.
Apesar de todo o processo de aculturação,ou seja,de negação da nossa cultura,da perda de identidade,dos elementos culturais em prejuízo, sobrevivem ainda alguns grupos nativos, autoctones que conseguiram perpassar todas as épocas,mantiveram-se intocáveis por não terem tido contatos com a dita civilização.
Nos últimos vinte anos as pesquisas arqueológicas avançaram no Brasil, trazendo indicadores de que existiram a milhares de anos povos pré - históricos, pré- cabralinos, pré - colombianos que chegam a questionar a história acadêmica, de que o mais antigo homem das américas tinha migrado e entrando pelo norte do continente através do estreito de Berhing, portanto, teria vivido na América do Norte, no entanto, há grandes indícios de que viveu no Brasil, mas precisamente no município de São Raimundo Nonato, no Piauí. Esta afirmativa ainda divide os estudiosos e os acadêmicos que insistem em afirmar a partir de uma visão eurocêntrica, dominadora e colonizadora de que a primeira afirmativa é a verdadeira.
Vale destacar ainda, que a arte Marajoara é considerada e sinaliza como a mais avançada dentre os grupos étnicos e/ou nações indígenas do Brasil ajudando a desmistificar a idéia de que as Civilizações Astecas, Maias e Incas seriam isoladamente as nações mais desenvolvidas das américas, no entanto, a nação Marajoara desponta no horizonte com grandes qualidades culturais, que a coloca em um estágio civilizatório equiparando - a as grandes nações, o que a habilita a ser destacada no cenário da história não só brasileira mas também americana, recheando a historia evolutiva da humanidade.

sábado, 13 de março de 2010

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HISTÓRIA

Conceituar a história exige do estudioso a formulação de um princípio generalizador, capaz de definir ou mesmo de designar de maneira abrangente a sua verdadeira dimensão, no carater científico que lhe é imputado.
Ser ciente é estar cônscio , é ser sabedor de algo , é ter o entendimento , é deter o conhecimento , portanto , fazer ciência é um apelo à razão , de forma reflexiva , pensante , em que se organiza as ideias a partir da pesquisa , da experimentação e da própria investigação do fato histórico caracterizado pela sua singularidade , importância , significação e relevância.
A história por ser ela um fenômeno essencialmente humano , traz consigo a própria dinâmica da vida , sendo ela móvel , modificadora e transformadora , testemunhando a construção do cotidiano nas mais diversas comunidades,culturas e civilizações .
Dimensionar a história numa visão contenporânea é entendê-la na sua verdadeira importância que é guardar a memória , preservando os valores das sociedades , sendo assim , escudeira e sob esta égide , defendê-los para a posteridade.Só assim , poderemos na sua mobilidade perceber que os valores perpassam todas as épocas , modificando e influenciando o presente confirmando o nosso desejo de protagonizar a construção do futuro.

Nesta perspectiva é que a história ganha força e grandeza , se universaliza encerrando em si o carácter de uma ciência verdadeiramente humana , devotada à cidadania dos povos e nações.
A promoção humana depende da tomada de consciência , portanto , a história também cumpre com esse papel o de humanidades , ou seja , humanizadora das relações , sejam elas inter - humanas,interpessoais , intergrupais que ocorrem num dado tempo e espaço.
A contextualização do fato histórico nos obriga a percebê-lo na sua abrangência , nas suas mais diversas ramificações , no quando ocorreu e aonde ocorreu o referido fato , pois a história é tecida nas relações humanas e deles com o meio . Os vestígios deixados pelas civilizações e\ou culturas se constituem em verdadeiras fontes históricas , indicadores capazes de evidenciarem e elucidarem a existência de povos , nações e civilizações nas suas mais variadas formas de viver , aspectos importantes para a compreensão da dimensão humana nas suas mais diversas realizações e contribuições , na edificação das sociedades em todas as épocas.
Tomando por base a historiografia moderna e as diversas tendências de pensamento é que a divisão pedagógica clássica da história em:Antiga,Medieval,Moderna e Contemporânea tem sido reforçada pela história regional numa tentativa de reescrevê-la a partir de outros pontos de vista , desmistificando certas posições eurocêntricas que nos impede de compreender a história do ponto de vista daqueles que foram colonizados,subjugados , suburbanos , periféricos ou mesmo emergentes à exemplo das minorias indias e negras deste país.

segunda-feira, 1 de março de 2010

HISTORIOGRAFIA

A busca incessante , incansável do ser humano em todo o seu processo evolutivo , foi e sempre será entender as coisas que estão a sua volta , no entanto , o conhecimento implica em ir traçando a história através de todas as suas matizes e ramificações nas diversa culturas , estas que são formadas a partir das relações entre os homens e destes com o meio ,desta interatividade e do dinamismo que é portador é que é produzido o fato histórico num dado tempo e espaço.
A diversas tendências de pensamento histórico , dentre eles uns teimam em vê a história como linear , como se os fatos se sucedessem sem nenhuma interligação , portanto , desconexas sem nenhuma implicação na relação causa/conseqüência , uma história voltada para a narrativa dos fatos , conteudista , heróica e presa ao passado.
Em contra -partida , dentro de uma visão moderna da historiografia na sua análise crítica da história , desenvolveu afirmativas que constrói o pensamento histórico que leva em consideração as ações investigativas , as atitudes da pesquisa histórica , alinhadas com outras ciências que as auxilia , de maneira interdisciplinar, na busca do conhecimento , captando e resgatando o cotidiano histórico numa perspectiva de futuro.
A sinuosidade da história exige dos estudiosos,pesquisadores,uma quase devoção em se dedicar aos estudos feitos nas mais diversas vertentes do conhecimento humano.
A história se torna elucidativa no momento em que lança mão , se utilizando de estratégias metodológicas em consonância com o pensamento histórico , capacitando-a em analisar de maneira contextualizada a realidade que nos cerca , sendo assim , vista de maneira abrangente , articulada , em que os fatos se entrelaçam , não se repetem na sua relação causal , traz à tona as suas evidências principal contributivo na construção da verdade.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

OS FILHOS DA TERRA


O oeste da Europa, num recanto do continente, na Península Ibérica, lá estava Portugal, que reunia todas as condições para realizar um dos maiores empreendimentos da história, fazendo parte de uma intencionalidade, o império monárquico mercantilista, tinha um projeto colonial; nas suas diversas tentativas de chegar às Índias através de novos caminhos que estivessem longe do monopólio comercial, que acontecia através do mar mediterrâneo, antiga rota comercial entre o Ocidente e o Oriente, as viagens se sucederam cheias de aventuras e conquistas de novos territórios e tudo que nelas existiam, inclusive os seus povos e nações.

Em 1500, inicio do séc.XVI, em uma das investidas chega a solo brasileiro os portugueses, fincando a bandeira lusitana, marco inicial de posse do território ainda desconhecido e a ser desbravado e conquistado de fato.

Há registros de que os primeiros contatos entre brancos portugueses e os nativos, autóctones se deu de maneira amistosa, harmoniosa, recheada de curiosidades e com troca de presentes, era um processo de aproximação, em estabelecer uma relação de confiança, o que durou muito pouco, pois, logo se utilizaram da mão- de- obra indígena em troca de quinquilharias, para tanto passaram á derrubada da floresta nativa, exigiram-lhes o empilhamento de toros de madeira margeando a praia, o pau-brasil, madeira de lei, de excelente qualidade largamente utilizada na fabricação de móveis e confecção de instrumentos musicais, como também na tintura de tecidos a satisfazer a ambição mercantil, embelezando os salões da corte e a prestigiar a vaidade da nobreza, externada nas vestes e nos tecidos finos.

Em 1530, aproximadamente se deu o início da colonização propriamente dita o modelo empregado já era conhecido, experimentado em outras colônias, apresentando resultados satisfatórios e abaixo custo. O sistema de capitanias hereditárias foi responsável pelo início da ocupação territorial brasileira e conseqüente interiorização, expansão e demarcação do território, definindo mais tarde os nossos limites.

A tentativa de escravização dos nativos será cada vez maior a utilização da mão-de-obra dos indígenas será acompanhada cada vez mais da exploração da sua força de trabalho, mas também cedo descobriram a inviabilidade da sua utilização, pois, os indígenas eram muitos, conheciam o terreno, não se submetendo a escravidão, resistiram, não se adaptaram ao trabalho coercitivo, contrário aos seus costumes, que não ambicionavam a acumulação de riquezas, não estando dispostos a quebrar a harmonia reinante entre o seu povo e a natureza. A mãe terra que tantos frutos lhes deram se via agora ameaçada e aviltada pela ação colonizadora.

A ação dos bandeirantes no processo de interiorização da colônia era crescente, a ação intinerante objetivava conhecer o território, ocupa-lo, buscar ouro e pedras preciosas, mais principalmente realizar o apresamento e/ ou preação dos índios, o que se constituía numa verdadeira caçada humana dentro das matas, como se fossem animais selvagens pegos a “dente de cachorro”Estas investidas conflituosas provocou ao longo da história um verdadeiro “genocídio “,apesar de serem numerosos e acostumados ao combate nas matas, tornava-se desigual,pois ,combater com arcos,flechas,tacapes e zarabatanas contra armas de fogo, os arcabuzes, era simplesmente impossível.

Diante dos acontecimentos os índios que sobreviviam, ficando submetidos aos brancos colonizadores, sujeitos a ação, a imposição dos costumes gerou um processo gradativo de branqaueamento, as misturas raciais se deram na maioria das vezes as índias eram serviciadas pelos seus senhores, a mestiçagem vai aos poucos descaracterizando a etnia índia, os mestiços mamelucos vai aos poucos perdendo a identidade cultural à medida que a urbanização avançava, o processo de aculturação, de negação da sua cultura será cada vez mais violento e arrebatador.

Por outro lado as missões jesuíticas referendadas pela hierarquia da Igreja, no afã de cumprir com a missão de cristianizar e evangelizar lançou mão da catequese, levando os evangelhos aos mais recônditos lugares, empreendendo uma educação calcada na visão branca européia, que tinha os índios como pagãos; acreditava-se que o conhecimento da palavra e o batismo, seriam necessários para o apaziguamento dos conflitos entre brancos e índios, para tanto, chegaram a traduzir textos para a língua tupi-guarani, facilitando a compreensão, o entendimento, o discernimento da mensagem cristã. Ora, a missão jesuítica ao ser construída delimitava a sua área de ação, ganhando em autonomia e facilitando o ensinar e o aprender, nesta troca os costumes do branco fora imposto aos nativos, contribuindo para a perda de sua identidade cultural.

Em l889, Séc. XIX, chegamos à república, novo sistema político que apontava para o futuro, alimentado pelos ideais do positivismo francês e da própria revolução francesa que juntos defendiam um humanismo, a valorização do homem alicerçada na igualdade, liberdade e fraternidade; residindo aí, as grandes esperanças de mudanças que viessem sanar os grandes problemas sociais do Brasil de então.

A herança, o ranço da monarquia, perdurará por muito tempo entre nós, sendo a principal questão a ser resolvida o da propriedade da terra, pois, ao longo de toda a nossa história tornou-se o nó-górdio dos problemas sociais do nosso país, perpassando todas as épocas. Vivemos 400 anos aproximadamente, sujeitos e sob forte influência da monarquia que tinha a terra como o seu maior bem, delineando o desenvolvimento nacional, com uma economia monocultora e agro-exportadora e ao mesmo tempo fragilizada pelas intempéries do tempo, pragas e os baixos preços alcançados no mercado internacional.

Os grandes fazendeiros, senhores de engenho, dos cafezais e a ação do coronelismo nos sertões, ainda será uma constante, mantendo as sua hegemonias político-econômica alicerçadas no grande latifúndio. As oligarquias fundiárias cada vez mais ricas, castrando a maior capacidade produtora deste país, que são os pequenos agricultores.

Em síntese, acreditava-se que a república seria a redentora do nosso Brasil, que iria curar a ferida histórica da relação do homem com a terra, no entanto, constatamos no presente momento que os problemas sociais se agravam mais a mais.

A partir desta análise e contextualizando a situação do índio brasileiro é que percebemos o quanto esta etnia foi historicamente sacrificada, prejudicada no seu modo de vida, na sua cultura, costumes e valores. Trazemos conosco um grande legado de atraso no que diz respeito à forma como tratamos o nosso patrimônio humano-histórico natural.

No início do Séc. XX, surge a figura do Marechal Cândido Mariano Rondon, que ao servir ao Exército Brasileiro, descobre-se no Pensamento Positivista defendido por Benjamim Constant, impregnado de humanidade, ajudando-o a assumir a sua identidade Bororo. Neste Brasil das primeiras décadas do Séc. XX, na sua dimensão continental necessitando de uma maior integração nacional através da comunicação, lhes deram a incumbência de desbravar os Sertões, construindo a rede telegráfica, pessoa abnegada, determinada, disciplinada assumindo esta missão.

Logo descobriu que não bastava construir a rede telegráfica, pois, junto dela havia os povos, as etnias índias que deveriam sobreviver, serem preservadas, para tanto, pregou um pacifismo, aconselhando-os a não resistirem ao avanço da urbanização, da tecnologia e do desenvolvimento, ou seja, o que importava naquele momento era sobreviver, pela sua importância enquanto povos e nações que tanto contribuem para uma identidade nacional.

Diante destes fatos e da própria maturidade das iniciativas empreendidas por Rondon, nasce à necessidade de criar institucionalmente as primeiras leis que tutelem os índios brasileiros como patrimônio humano, histórico-natural, fora criado neste momento o SPI – Serviço de Proteção ao Índio, que mais tarde, em 1967,tornou-se a FUNAI – Fundação Nacional do Índio, o Estado brasileiro chama para si a responsabilidade de proteger estas etnias e com elas a preservação da memória viva do nosso povo.

Por sua vez a Igreja Católica, através da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, criou o CIMI – Conselho Indigenista Missionário tendo por missão ajudar as comunidades indígenas na sua organização, reaglutinação,preservação dos seus costumes e valores culturais, para tanto os missionários religiosos e leigos elaboram projetos que contemplam a realidade de cada grupo,sendo este trabalho conseqüência da visão social cristã. Sem sombras de dúvidas estas ações significaram e significam muito, no que diz respeito a uma tomada de consciência da nossa realidade enquanto nação e nos anima mais ainda a perseverar no caminho de uma identidade nacional e na conquista da autonomia índia.

A partir dos elementos e vestígios culturais existentes conseguimos reconstruir a história de muitas comunidades indígenas neste país, ajudando-os a se identificarem como tal, reorganizar-se, defendendo os seus costumes e valores culturais, buscando o reconhecimento oficial e a demarcação de suas terras, vale destacar os índios do nordeste, até porque foi por aqui que se iniciou o processo de colonização, os primeiros contatos, os primeiros conflitos e com eles toda a violência que desceram sobre eles de maneira avassaladora.

Vale destacar no nordeste brasileiro, que no início da colonização existiam muitas nações indígenas que povoavam toda a região, desde o litoral até o interior do sertão, sendo eles os primeiros a sofrerem todo o processo violento de aculturação, segregação racial, desagregação social e miscigenação, este último, gerando os mamelucos conhecidos no nosso meio como “caboclos”. Na porção litorânea evidenciamos a existência da nação dos Aimorés, conhecidos como Botocudos, por utilizar-se de roldana de madeira no lábio inferior e do hábito de furar as orelhas, sendo também destemidos guerreiros.

Já no interior, mais precisamente na região ribeirinha do Rio São Francisco na sua porção navegável, nas suas corredeiras, cascatas, floresta de cana-fístulas cheia de garças brancas e outros espécimes da fauna local que sobrevivia na maioria das vezes dos charcos deixados pelas enchentes e vazantes do rio, guardavam também a nação Cariri, que falavam língua do tronco macro-jê que os integravam harmoniosamente neste universo natural.

Salientar estas nações tão importantes no contexto histórico nordestino é falar da nossa memória revivida no presente, através dos povos desta região, tais como:Truká / Paulo Afonso, Pankararé / Brejo do Burgo, Kantaruré / Glória , Xucuru-Kariri / Glória, Tuxá / Rodelas , Atikum / Rodelas, Truká / Sobradinho, Kiriri / Banzaê, Atikum / Curaçá, Pankarú / Serra do Ramalho, Tumbalalá /

Abaré e Curaçá, Kaimbé / Euclides da Cunha. .

quinta-feira, 9 de abril de 2009

RAÍZES DO CORONELISMO NOS SERTOES

RAÍZES DO CORONELISMO NOS SERTÕES

Não temos como nos pronunciar sobre esta temática, tão distante e ao mesmo tempo tão próxima de nossa realidade atual,sem antes buscar entender as razões históricas pelas quais o nosso país passou,levando à formação deste fenômeno que não é meramente político e econômico,mas também social tendo influenciado a cultura nordestina até os nossos dias.

A ocupação territorial brasileira foi decisiva em estabelecer uma visão medíocre,porque não dizer “ ranzinza “ de colonizar,em atender anseios e interesses de uma monarquia absolutista calcada num modelo agroexportador,fundamentado na posse da terra e de quem nela vivia.

A origem da relação do homem com a terra no Brasil é précabralina,ou seja, antes de Cabral,havendo fortes indicadores de que os ameríndios conviviam de maneira harmoniosa com a mesma.

.Com a vinda dos colonizadores esta relação passa a mudar substancialmente,tanto no modo,meios e força de produção utilizados ,trazendo consigo uma herança de 500 anos,alicerçada na grande propriedade;adotando o sistema de capitanias hereditárias,que consistia em divisão do território com dimensão desconhecida,que se iniciava no litoral e rumava para o interior,para os confins.Os donatários por sua vez concedia “sesmarias”,ou seja lotes de terras que chegavam a oitenta,cento e sessenta,duzentas léguas de terras.

Com o advento da república e a abolição da escravatura no final do século XIX , se constituíram em grandes esperanças de mudanças na qualidade de vida das pessoas ,no entanto,não ocorrera ,não conseguiram atender os anseios,as expectativas dos brasileiros.Frustrados continuaram a vivenciar os desmandos, dando lugar ao modelo arcaico de supervalorização da propriedade da terra .As fazendas se multiplicaram,agora não só no cultivo da cana de açúcar mas também do café e mais tarde do cacau.

Nas três primeiras décadas do século XX,o nosso sistema político-econômico esteve alicerçado essencialmente na atividade do campo,no cultivo agrícola e na criação de gado.Com ela toda herança histórica e de uma cultura social criada a partir da visão colonizadora e eurocêntrica.

A propriedade se constituiu não apenas num bem,em riqueza, mas em privilégio de alguns,de uns poucos,formando verdadeiras oligarquias fundiárias que perpassaram todas as épocas ,ainda presente em nossos dias .Que a terra é uma riqueza é inquestionável o que preocupa na verdade é o seu uso ,a que se destina?Se tem de fato proporcionado aos trabalhadores rurais a sua permanência no campo,se tem motivado os filhos dos filhos a continuarem como agricultores.

Os donatários em suas capitanias e cercanias eram imbuídos de plenos poderes,exerciam a justiça,julgando e condenando;exploravam os recursos naturais em toda a sua dimensão,faziam apresamento de índios e negros escravizando-os;cobravam e pagavam altos impostos a realeza;tinham a sua própria milícia para defender a propriedade,sua família e agregados,em síntese,estamos diante dos “donos da terra e do poder”.

A situação de injustiça social estabelecida nas raízes do Brasil-Colônia,passou pela monarquia chegando até a república .Situação esta agravada no percurso da história pelos desmandos exercidos por donatários,bandeirantes e fazendeiros.A pobreza,as péssimas condições de vida do homem do campo favoreceram o surgimento de movimentos rebeldes ,sejam dos negros que fugiam das senzalas a formarem os Quilombos,o Cangaço e a Guerra de Canudos.

É neste contexto que surge a figura dos coronéis nos sertões fazendo parte de toda esta historicidade ,encarnando toda esta visão de mundo ,em que possuir o latifúndio era fundamental para o exercício do poder e para tanto não mediam esforços para consolidar a sua posição nas localidades em que viviam,era essencial mandar,ser respeitado,gozar de prestígio,ser detentor da riqueza, era a garantia da sua família e agregados para tanto cometiam verdadeiras arbitrariedades arrodeado de jagunços,capangas e vaqueiros desenvolvia as suas atividades econômicas ;na falta de uma milícia oficial e ordenanças, era conferido a “patente de coronel” que lhes dava direito de praticar a justiça chegando a cometer abusos se utilizando dos serviços de jagunços e pistoleiros, a depender do caso.

Quase sempre as províncias,vilas,vilarejos e povoações surgiam nas mediações das grandes fazendas ,base de sustentação, em função das atividades econômicas desenvolvidas e do controle do uso da água escassa nos sertões, principalmente os chamados “Olhos D água”estabelecia-se assim uma relação de dependência de todos para com o coronel, ordenava a vida de todos e da própria vila influenciava fortemente a política local obrigando a todos votarem nos seus candidatos,ou seja, o voto era encabrestado.

Nos idos de l930,interessado em estabelecer sua hegemonia política no sertão nordestino o Governo Getúlio Vargas declarou guerra contra os movimentos de rebeldia e dos coronéis que tinham verdadeiro poder de mando,de forte influência no meio político,de inclusive de nomear e demitir funcionários na esfera dos governos.

Diante de toda a perseguição aos coronéis de patente,assim conhecidos,sobreviveu nos sertões famílias tradicionais, com elas suas histórias de poder ,opulência e influência nas localidades onde se encontram sediadas ,os seus sobrenomes destacam-se,são referências e delineadoras da política,da economia e da cultura de cada cidade e/ou micro região,valendo destacar no lado Pernambucano: Novais e Ferraz (Floresta),Pereira e Carvalho (Serra Talhada),Bemvindos e Gonçalves (Belém de São Francisco),No lado Alagoano: Torres (Água Branca),Malta e Brandão (Mata Grande),Medeiros (Poço das Trincheiras ),Rodrigues (Piranhas),Ribeiro(Palmeira dos Índios ),No lado Paraibano: Pereira (Princesa Isabel),No lado Bahiano: Horácio de Matos,Franklin Albuquerque,Militão,Marcionílio Donca Machado,Garcia D avila,Guedes de Brito (Recôncavo Bahiano),Brancos e Morenos na cidade de Chorrochó.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

NORDESTE: CABRA DA PESTE

Há quem diga que o nordestino é meio islamizado e não é de se estranhar, até porque fomos colonizados pelos portugueses, que viveram por mais de seis séculos sob forte influência muçulmana, isto transparece no nosso modo vivendi, ou seja, nas características sócio-religiosas-culturais do nosso povo. O cabra da peste é um velho jargão do nordeste, que do ponto de vista lingüístico e sociológico é carregado de sentido. Segundo Euclides da Cunha em seu livro os "Sertões" enfatiza que o nordestino é antes de tudo um forte, porque viu nele o homem destemido, de têmpera forte, que "não leva desaforo pra casa", capaz de feitos heróicos, determinado e ao mesmo tempo de muita fé e temência a Deus. Aqui não tem lugar para quem é mole, pois, os fatores naturais e sociais nos desafiam constantemente, exigindo a sua superação. A peste negra, assim conhecida, na Idade Média, na Europa, dizimou populações inteiras de jovens, doença muito temida, originou-se nos bolsões de pobreza caracterizada pela falta de higiene, agravada pela falta de saneamento. A caprinocultura, ou seja, a criação de caprinos no sertão se constitui numa tradição, o pastoreio deste espécime de pequeno porte adaptado à seca, resistente, utiliza-se de pouca água, alimentando-se de pasto natural a exemplo do: alastrado, mandacarus, coroa de frade, facheiro, quixaba, ubaia, catingueira... Criado solto, sem fronteira e cativeiro se multiplicam, procria sem medidas. Roubar bode nos sertões é um dos maiores crime, passível de punição com a própria vida e para identificar o ladrão, amarra-lhes ao pescoço um chocalho. Dele tudo se aproveita o leite, o couro e a carne tão apreciada fazendo parte da culinária nordestina, tendo baixo teor de gordura, saborosa, digestiva podendo comê-la cozida, frita, assada, verde, seca, esta última salgada e levada ao sol.A seca, os longos períodos de estiagem unem o homem e o caprino nos sertões, dois elementos que enchem a paisagem nordestina ambos convivem dia a dia neste cenário, muitas vezes inóspito. Se por um lado o caprino compõe a base da economia de subsistência por outro lado o homem sertanejo tem e vê nele o símbolo da resistência, da superação, fertilidade, da garantia do rebanho e sua manutenção. Ser um cabra da peste é ter a natureza, a perseverança, a resistência a origem, atitude, a perspicácia, a força gregária de vida evidenciada no rebanho e no bando e vivê-los faz parte do caráter de fidelidade nestas terras onde o perdão é quase impossível. Alguém já dizia da sensibilidade nordestina como se fosse uma fragilidade do nosso EU, no entanto, é da sua índole a capacidade de acolhimento, hospitalidade, resignação, humildade e fé, não admitimos a traição. O nordeste traz consigo o que existe de mais brasileiro dentro de tantos brasis.